Prefeito Agnaldo critica italianos por falta de respeito à história dos imigrantes
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 1 dia
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Mudanças na lei italiana sobre cidadania por descendência e o silêncio das autoridades motivam reavaliação do Pacto de Amizade com Belluno

O prefeito de Pedras Grandes, Agnaldo Filippi, avalia propor o rompimento do pacto de amizade firmado entre o município e a cidade de Belluno, na Itália. A medida vem sendo discutida internamente e deverá ser encaminhada à Câmara de Vereadores nas próximas semanas. Segundo o prefeito, a decisão tem base em divergências políticas e no “silêncio” das autoridades italianas diante das recentes restrições impostas pelo governo daquele país ao reconhecimento da cidadania por descendência.
O pacto de amizade entre as duas cidades nasceu com o objetivo de estreitar os laços históricos e culturais entre o Sul de Santa Catarina e a região do Vêneto, de onde vieram muitos dos imigrantes que colonizaram Pedras Grandes. Agora, esse vínculo simbólico pode ser rompido, num gesto que o prefeito considera “de dignidade e de respeito à história”.
“Nosso posicionamento é muito claro e tem como base o comportamento do italiano e das entidades que os representam fora da Itália. O silêncio deles falou muito alto”, afirmou Filippi em entrevista ao Jornal Panorama.
“Eles deixaram evidente que não querem saber da gente aqui no Brasil. Não se trata de dinheiro, mas de respeito à história que construímos e aos laços fraternos que mantemos há gerações”, acrescentou.
O descontentamento do prefeito cresceu após a aprovação do Decreto-Lei nº 36/2025, conhecido como “Decreto Cutro”, que foi recentemente convertido em lei pelo Parlamento italiano. O texto impõe restrições ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência, atingindo diretamente brasileiros que buscam o reconhecimento do chamado jus sanguinis (direito de sangue).
A principal mudança é a limitação geracional no processo de cidadania pela via administrativa, ou seja, por meio dos consulados italianos no exterior. Agora, apenas filhos e netos de italianos nascidos na Itália e ainda vivos poderão solicitar o reconhecimento automático. Brasileiros que são bisnetos ou pertencem a gerações mais distantes não poderão mais iniciar o processo nos consulados.
A medida atinge em cheio cidades como Pedras Grandes, onde uma parcela expressiva da população é descendente direta de imigrantes italianos. Para essas famílias, a nova regra representa uma barreira ao resgate de sua identidade e à manutenção dos vínculos históricos com a terra de origem dos antepassados. “Não queremos romper pontes, mas ser respeitados”
O prefeito reforça que a intenção não é encerrar relações com o povo italiano, mas expressar descontentamento com a falta de diálogo das autoridades estrangeiras e de suas representações no Brasil.
“A aprovação desse decreto deixa muito claro o posicionamento deles. O que pedimos é simples: respeito à história que construímos aqui, desde o final do século XIX. Não estamos pedindo privilégios, apenas reconhecimento do nosso valor como descendentes e parceiros históricos”, enfatizou Filippi.
“A Câmara já iniciou essa discussão. Com certeza, essa é uma possibilidade real. Temos que nos comportar com altivez e dizer ‘não’ quando é preciso.”
A proposta de rompimento do pacto de amizade com Belluno já foi mencionada nas sessões da Câmara de Vereadores de Pedras Grandes. Parlamentares confirmam que o tema será analisado com cautela, ouvindo entidades culturais, descendentes de imigrantes e representantes da comunidade. O assunto desperta diferentes opiniões: enquanto alguns veem o rompimento como uma forma legítima de protesto simbólico, outros defendem a manutenção do pacto como canal de diálogo.
“Não queremos hostilidade com o povo italiano, mas precisamos afirmar nossa dignidade. O pacto nasceu de um sentimento de irmandade e deve continuar existindo apenas se houver respeito mútuo”, afirmou o prefeito.
O pacto de amizade com Belluno foi celebrado justamente para valorizar essa herança cultural e promover intercâmbios educacionais e culturais, além de estreitar a cooperação entre instituições públicas das duas localidades. A eventual ruptura do acordo, portanto, teria forte valor simbólico, refletindo o sentimento de parte da comunidade que se sente esquecida pela Itália.
“O que pedimos é respeito. Respeito pela história, pelas famílias que construíram esta cidade e pelos laços que, por tantos anos, nos uniram à Itália”, concluiu Agnaldo Filippi.










