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Onde muitos veem sucata, Cabral enxerga futuro

Há mais de 35 anos, o reciclador de Rio América transforma materiais descartados em renda, preserva o meio ambiente e constrói uma história marcada pela honestidade, trabalho e solidariedade



Enquanto muita gente enxerga apenas ferro velho, geladeiras quebradas, fogões inutilizados ou montanhas de plástico e alumínio, Sérgio Luiz Delfino, conhecido por todos como Cabral, vê oportunidade, trabalho e dignidade. Morador da comunidade de Rio América, em Urussanga, ele dedica mais de 35 anos da vida à coleta, compra, recuperação e comercialização de materiais recicláveis, atividade que garantiu o sustento da família e transformou seu nome em referência no setor.

A história de Cabral é construída sobre esforço, honestidade e respeito. Criado apenas pela mãe, ele conta que foi dela a principal lição que levou para a vida.

“Ela sempre dizia: meu filho, se tiver que mexer em alguma coisa dos outros, não mexa. Mexa só no ferro velho”.

A frase, repetida com orgulho durante a entrevista, resume a filosofia que acompanha sua trajetória.

Cabral afirma que sobrevive exclusivamente da reciclagem. Criou dois filhos, hoje comemora a chegada de cinco netos e ainda consegue ajudar a família graças ao trabalho diário. Ele faz questão de destacar que nunca precisou recorrer a qualquer atividade ilícita para construir seu patrimônio.

“É dali que a gente tira o pão, paga as contas e vive com dignidade”.

O que começou de forma simples evoluiu ao longo dos anos. No início, utilizava um Fiat 147 adaptado para transportar cargas pesadas. Hoje trabalha com uma caminhonete Mercedes que, segundo ele, representa uma das maiores emoções de sua vida.

Cabral lembra que o antigo proprietário costumava dizer que ele merecia um veículo daquele porte pela dedicação ao trabalho. Depois do falecimento do dono, a caminhonete acabou sendo negociada com ele. “Quando conto essa história até me emociono. Parece que Deus foi abrindo as portas”.


Muito além da sucata

No amplo terreno onde trabalha, Cabral mantém centenas de materiais separados e organizados. Há eletrodomésticos, móveis, metais, cobre, alumínio, plástico, ferro e inúmeros outros itens que seriam descartados. De acordo com Cabral grande parte do material ainda recebe uma segunda oportunidade. Geladeiras, fogões, máquinas de lavar, micro-ondas e diversos equipamentos passam por pequenos reparos feitos pelo próprio Cabral antes de voltarem ao mercado por preços acessíveis.

Segundo ele, muitas vezes basta substituir uma resistência, apertar um parafuso ou realizar um pequeno conserto para que o equipamento volte a funcionar perfeitamente.

Essa prática beneficia principalmente famílias de menor renda, que conseguem adquirir produtos em boas condições por valores muito inferiores aos praticados nas lojas. “Se dá para consertar, eu conserto. Se não dá, vai para reciclagem”, resume.

Ao longo das décadas, Cabral conquistou algo que considera ainda mais importante que o patrimônio material: a confiança da comunidade.

Ele conta que frequentemente pessoas testam sua conduta oferecendo objetos de procedência duvidosa. A resposta, segundo ele, é sempre a mesma.

“Aqui minha vida é um livro aberto. Se alguém vier com alguma coisa roubada, eu entrego para a polícia”. Toda compra realizada recebe nota fiscal, e o empreendimento possui licenciamento ambiental para funcionamento. Cabral afirma que faz questão de seguir todas as exigências legais. “Está tudo dentro das normas. Quem quiser pode conferir”. Essa postura lhe garantiu credibilidade junto aos moradores, que hoje preferem ligar diretamente para Cabral quando desejam vender materiais recicláveis ou eletrodomésticos usados.


Economia circular que gera renda

O volume de materiais movimentado impressiona. Em apenas uma carga recente, havia cerca de três toneladas de recicláveis sobre o caminhão. Semanalmente são comercializados milhares de quilos de plástico, alumínio, cobre e ferro para empresas especializadas.

Cabral explica que compra materiais diretamente da população, pagando valores compatíveis com o mercado.

O alumínio em forma de latinhas, por exemplo, é adquirido por cerca de R$ 9,00 o quilo. Panelas de alumínio chegam a R$ 10,00 o quilo, enquanto o cobre possui um dos maiores valores de revenda.Toda essa cadeia movimenta recursos que retornam à economia local, além de evitar que toneladas de resíduos tenham como destino terrenos baldios, rios ou aterros sanitários.

Além da própria família, Cabral também gera empregos mantendo ajudantes que trabalham diariamente na coleta e separação dos materiais, recebendo salário, alimentação e transporte. Segundo ele, a reciclagem permite criar oportunidades para quem deseja trabalhar honestamente. “A reciclagem veio para ficar. Pode acabar o Cabral, mas a reciclagem não acaba”.

Apesar do reconhecimento conquistado, Cabral admite que sonha com melhorias em sua estrutura de trabalho.O galpão onde armazena os recicláveis foi construído há muitos anos e apresenta sinais do tempo. Por isso, aproveitou a entrevista para fazer um apelo aos governantes.

Gostaria de receber apoio para construir um espaço mais moderno, seguro e adequado ao crescimento da atividade. Segundo ele, investir em reciclagem significa investir diretamente na preservação ambiental.

Mais do que um comerciante de sucatas, Sérgio Luiz Delfino, o Cabral, tornou-se um símbolo de perseverança em Urussanga. Sua história mostra que materiais descartados podem ganhar nova utilidade, gerar renda, reduzir impactos ambientais e melhorar a vida de muitas pessoas. Em uma época em que sustentabilidade e economia circular são temas cada vez mais presentes, Cabral prova, com mais de três décadas de trabalho, que reciclar vai muito além de separar resíduos. É uma atividade que transforma objetos esquecidos em oportunidades e demonstra que honestidade, dedicação e respeito continuam sendo os maiores patrimônios que alguém pode construir.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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