O Menino de Rio Salto: de um sonho ao topo do Futsal Europeu
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 5 horas
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Gustavo é o primeiro atleta urussanguense a participar da Champions League

Nas ruas de Rio Salto, num pequeno bairro no interior de Urussanga, Sul de Santa Catarina, um menino descalço chutava uma bola despreocupadamente.
Seu nome: Gustavo Padilha De Brida.
Não havia pressa em arremessar o artefato e nem de mostrar aos outros a intimidade que começava a surgir entre ambos.
Ele sonhava em cores. Não as da sua vida real, na grande maioria impregnada pelo preto do carvão mineral extraído nas redondezas ou no avermelhado do enxofre a poluir os rios, mas naquelas que ele podia imaginar em uniformes de times, de seleções, em luzes piscando em estádios e em camisetas de torcedores gritando seu nome após gols em grandes estádios.
Seus primeiros mestres nunca pisaram em uma universidade de educação física. Eram seus amigos de escola, os garotos que chutavam bola em avenidas sem pavimentação ou campos improvisados, onde as técnicas floresciam naturalmente e o talento se revelava.
Dia após dia, treino após treino, o menino de Rio Salto refinava suas habilidades. Os amigos reconheciam: aquele não era um jogador comum. Havia algo diferente em seu jeito de driblar, na precisão de seus passes, na frieza com que finalizava as jogadas.
Seu nome era disputado pelos times que buscavam vitória nos campeonatos municipais e, na pequena comunidade, nascia uma certeza: aquele garoto não podia parar de jogar. E ele não parou. Não foi muito fácil sua trajetória. Nada de real acontece assim.
Primeiro, ele jogou pelo time da sua localidade - o Palmeirinhas, depois vieram os campeonatos pela Escola Antonieta Quintanilha de Andrade de Rio América e pela DME de Urussanga.
Desde muito jovem buscou oportunidades fora de Urussanga e jogou nas categorias de base do Hercílio Luz e do Tubarão.
Mas quando completou 18 anos, resolveu parar com o futebol.
“Ainda estava em idade de categoria de base, mas como as oportunidades eram difíceis e o retorno financeiro era muito baixo, acabei desistindo naquele momento. Trabalhei em algumas empresas de Urussanga, mas nunca deixei o sonho de lado. Continuava jogando campeonatos amadores e treinando depois do trabalho.
Depois de um tempo o sonho falou mais alto e resolvi voltar a jogar. Passei por alguns times profissionais de Santa Catarina e Paraná até começar a pensar na possibilidade de buscar oportunidades na Europa com a minha cidadania italiana.
Através de um amigo em comum, conheci o Matheus Barichello, que acabou se tornando um grande amigo e também meu padrinho de casamento. Ele já jogava na Europa há algum tempo e me ajudou tanto no esporte quanto no processo dos documentos” afirmou Gustavo.
Outro ciclo veio com a oportunidade de jogar num time de futsal de Larino, na Itália, iniciando sua trajetória no futsal europeu.
Também jogou uma temporada nas equipes de Grottaccia e Torremaggiore, onde teve algumas conquistas e construiu grandes amizades.
Assim, o jovem se aventurou pelo continente europeu em busca de ligas maiores, competições mais fortes, adversários que o obrigariam a crescer. Itália, a terra dos imigrantes que colonizaram sua amada Urussanga lhe abriu as portas.

Hoje, aos 29 anos, Gustavo vive na Irlanda, onde foi campeão da Liga Nacional e da Copa Nacional pelo Blue Magic, competição que lhe proporcionou vaga para a Champions League de Futsal, torneio em que teve a oportunidade de disputar representando a Irlanda.
E isso é muito importante, pois Gustavo é o primeiro atleta de Urussanga a disputar uma Champions League de Futsal.
Recentemente, ele foi campeão nacional da Irlanda do Norte pela equipe Sparta Belfast, garantindo novamente vaga para a próxima Champions League. Não é mais um sonho.
É uma vida construída pela persistência.
Em entrevista à reportagem de Panorama, Gustavo disse que atua como fixo, ala e pivô. “Hoje, uma das coisas que mais me motivam é poder representar minha cidade fora do país e mostrar que alguém vindo de uma cidade pequena também pode conquistar espaço através do esporte. Fico muito feliz em poder compartilhar essa história com o pessoal da nossa região, porque sei que pode servir de incentivo para muitos jovens que sonham em seguir no esporte ou correr atrás dos próprios objetivos” afirmou Gustavo.

Em uma sala, na residência que vive com sua esposa Janaina Westphal Lóss, em Belfast, seus troféus brilham nas prateleiras. Cada um conta uma história: uma final conquistada, um campeonato vencido, uma noite mágica onde seu talento encontrou o seu auge.
A bola ainda dança em seus pés com a mesma graça de sempre, mas levarão a cada canto do mundo por onde ele andar, a força e a determinação aprendidas no pequeno Rio Salto.
O lugar de onde, num corajoso pulo, saltou do sonho para a realização.




