WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 15 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Mater Nostra
Ela não nasceu pronta. Foi empurrada pra dentro da função de Mãe, como quem entra num ônibus lotado às seis da manhã: sem ar, sem escolha, com um filho no colo e outro a caminho, costurado na incerteza dos dias. A maternidade, por aqui, não vem com enxoval bordado — vem com fila de posto, cesta básica, vizinha que empresta o leite, e o desespero de não saber o dia de amanhã. A mulher que educa o Brasil de verdade, não sai nas propagandas. Não faz yoga, não posta frases motivacionais, não toma vinho no fim do dia. Toma ônibus, toma bronca, toma conta. E, no meio do caos, ainda arranja tempo pra ensinar o filho a dizer “com licença”, a pedir “por favor”, a não devolver com violência o pacote de magoas embrulhadas que a vida entrega todo dia.
A rua é dura, o asfalto quente, as manhãs frias, o salário não dão — mas ela vai. Vai porque parar nunca foi opção. Vai mesmo com dor no corpo, com cólica, mesmo com medo, mesmo sem saber se vai dar certo. Ela caminha entre ruas, planilhas, filas de banco, remédios vencendo no armário e boletos vencidos na geladeira. Mas segue. Ninguém a vê quando desaba no banheiro, com o chuveiro ligado só pra disfarçar o choro. Ninguém pergunta como ela está — porque mãe, no imaginário nacional, é cimento: sustenta, segura, aguenta. Mas a verdade é que ela racha. E, às vezes, quebra por dentro sem fazer barulho ou estalo. Já empurrou carrinho de feira e de bebê ao mesmo tempo. Já levou bronca do patrão e sorriso do filho no mesmo minuto. Já atravessou a cidade pra trabalhar e voltou com brinquedo de um real no bolso, como se fosse ouro. Já inventou almoço com o que tinha, que era quase nada.
Essa mulher, que a vida moldou na marra, guarda uma coragem silenciosa. Não estampa camisa, não ganha troféu. Mas levanta gente. Todos os dias. E isso devia bastar. Quando ela falta, falta chão. Falta feijão com gosto de casa, bronca com gosto de cuidado, presença que era mapa e bussola. E a gente entende, tarde demais, que havia amor até no silêncio dela. E o que ela deixou não cabe numa flor de maio — cabe no pó da estrada que percorreu sozinha, no suspiro de quem resistiu à própria ausência, e na eternidade de tudo que só existiu, porque ela escolheu ficar, e amar.








