Setor de saúde avança em meio a desafios históricos e amplia investimentos na rede pública
- MARCIA MARQUES COSTA

- 30 de abr.
- 5 min de leitura
Com filas herdadas de anos anteriores, Secretaria intensifica ações, amplia recursos e projeta melhorias estruturais e assistenciais para a população

A Secretaria de Saúde de Urussanga vem enfrentando um dos maiores desafios da gestão pública: reorganizar um sistema impactado por demandas represadas ao longo de anos, ao mesmo tempo em que amplia o acesso e qualifica o atendimento à população.
Em entrevista, a secretária de Saúde, Camila Martins, enfermeira com mais de 20 anos de atuação no Sistema Único de Saúde (SUS), acompanhada do coordenador da Atenção Básica, Gabriel Savi Mondo, detalhou o cenário encontrado, os avanços conquistados e as projeções para os próximos anos.
FILAS HISTÓRICAS
Ao assumir a função em 2025, Camila relata ter encontrado uma rede pressionada por uma demanda acumulada, especialmente na média complexidade — que envolve exames especializados e consultas com especialistas.
“Recebemos uma saúde com filas muito extensas, com demandas de 2018, 2022 e 2023. Isso mostra o quanto o sistema vinha sobrecarregado há anos”, explica.
Entre os casos mais críticos estavam exames como tomografias, cuja fila chegava a sete anos de espera. Com ações direcionadas e investimentos, o município conseguiu avançar significativamente na redução desse passivo.
Hoje, os números demonstram evolução importante.
Cardiologia:
de 2 anos de espera para cerca de 6 meses
Endocrinologia:
de 2 anos para aproximadamente 7 meses
Neuropediatria:
de 1 ano para cerca de 10 meses
Oftalmologia: de 2 anos para cerca de 9 meses
Ortopedia: de 2 anos para cerca de 7 meses
Tomografia: de fila iniciada em 2018 para exames já em 2024/2025
Endoscopia e colonoscopia:
de 2 anos para cerca de 1 ano
“A gente não zera filas no SUS, essa é uma realidade nacional. O que fazemos é reduzir o tempo de espera e dar respostas mais rápidas ao paciente”, destaca a secretária.
INVESTIMENTOS CONTÍNUOS
Para enfrentar esse gargalo, o município tem ampliado os investimentos na área da saúde. Somente em exames laboratoriais, foram aplicados cerca de R$ 650 mil em 2024, viabilizando cerca de 104 mil exames. Em 2025 o investimento foi de R$ 814 mil reais para mais de 118 mil exames.
Em 2026, os investimentos mensais também cresceram. O valor destinado aos laboratórios passou de aproximadamente R$ 70 mil mensais em 2025 para R$ 80 mil em 2026, com reforço de até R$ 100 mil nos primeiros meses do ano, visando reduzir a demanda reprimida.
Além disso, emendas parlamentares têm sido fundamentais para acelerar atendimentos.
Apenas para exames de ultrassom, considerados hoje o maior gargalo, o município recebeu R$ 200 mil, permitindo a liberação de mais de 1.400 exames — ainda assim, a fila permanece elevada, com cerca de 1.900 pacientes.
Outro dado relevante é o custo mensal da manutenção da média complexidade: cerca de R$ 150 mil a R$ 160 mil por mês são destinados às consultas e exames no Centro de Especialidades.
MUDANÇAS NO SISTEMA
Um dos pontos críticos enfrentados pela atual administração municipal foi a mudança no sistema de gestão dos exames laboratoriais, ocorrida em agosto de 2024.
Segundo Camila, a alteração comprometeu o controle das cotas financeiras por unidade de saúde, o que gerou aumento desordenado na solicitação de exames.
“O sistema deixou de controlar as cotas por unidade, e isso gerou uma bola de neve. Sem esse controle, houve aumento na solicitação de exames além do necessário clínico”, explica.
A normalização começou em março de 2026, com a entrega de uma nova plataforma. A partir de maio, o sistema volta ao modelo anterior, com cotas organizadas e controle mais rigoroso.
Mesmo assim, a Secretaria já prevê investimento adicional para absorver exames acumulados de meses anteriores.
RESPONSABILIDADE CLÍNICA
Outro aspecto destacado pela gestão é a necessidade de reforçar protocolos clínicos.
De acordo com a secretária, o uso adequado dos exames é essencial para manter o equilíbrio do sistema.
“Não é porque o paciente tem uma dor que precisa solicitar uma grande quantidade de exames. Existe uma avaliação clínica que deve ser respeitada”, pontua.
Na prática, o paciente continuará saindo da consulta com o exame autorizado, podendo escolher entre os laboratórios credenciados.
No entanto, poderá haver variações no atendimento conforme a capacidade de cada prestador.
DESAFIO DA MÉDIA COMPLEXIDADE
A fila de espera no SUS segue critérios técnicos definidos por regulação. Em Urussanga, o sistema utilizado é o CISREG, que prioriza atendimentos conforme a gravidade do caso.
“O que define quem será atendido primeiro não é a ordem de chegada, mas a condição clínica do paciente. Existe um médico regulador que avalia cada caso”, explica Camila.
A média complexidade segue sendo um dos maiores desafios não apenas do município, mas de toda a região. A dificuldade de contratação de especialistas e a dependência de consórcios intermunicipais, como o CISANREC, limitam a ampliação da oferta.
“Muitos profissionais atendem em vários municípios e têm agenda reduzida. Em alguns casos, mesmo com recurso disponível, não encontramos especialistas”, acrescenta.
FALTAS EM CONSULTAS PREJUDICAM
Outro problema enfrentado pela Secretaria é o alto índice de faltas em consultas agendadas. Segundo a equipe, o absenteísmo compromete o andamento das filas e impede que outros pacientes sejam atendidos.
“O SUS não é de graça, é um direito. Mas junto com o direito vem o dever. Se não puder comparecer, é importante avisar com antecedência”, reforça a secretária.
ATENÇÃO BÁSICA E HUMANIZAÇÃO
Para o coordenador da Atenção Básica, Gabriel Savi Mondo, o fortalecimento da rede passa também pela qualificação do atendimento e pela humanização dos serviços.
“Trabalhamos com condições crônicas que exigem acompanhamento contínuo. Nosso objetivo é garantir um cuidado mais individualizado e integral para cada paciente”, afirma.
Ele destaca ainda que o modelo com múltiplos prestadores amplia o acesso e oferece mais opções à população, evitando concentração de serviços em um único local.
INVESTIMENTOS EM ESTRUTURA E
NOVOS PROJETOS
Além das ações assistenciais, a Secretaria também avança na melhoria da infraestrutura. Unidades de saúde que estavam em condições precárias estão passando por reformas e revitalizações.
Entre os destaques: Reforma de unidades como De Villa e Santana, Revitalização de diversas estruturas de saúde, Implantação de melhorias visuais e estruturais, Projeto de construção de nova unidade de saúde e Reforma do Centro de Especialidades.
“As unidades estavam sucateadas. Precisamos priorizar exames e consultas em 2025, mas agora estamos conseguindo avançar nas melhorias físicas, que também fazem parte do acolhimento”, ressalta Camila.
UM TRABALHO CONTÍNUO
A gestão reforça que os desafios na saúde pública são permanentes e exigem planejamento, investimento e dedicação contínua.
“Nunca dissemos que seria fácil. A saúde é uma luta diária, mas estamos trabalhando para melhorar o acesso, reduzir filas e oferecer um atendimento mais digno à população”, conclui a secretária.
Com avanços concretos já registrados e novos projetos em andamento, a Secretaria de Saúde de Urussanga busca equilibrar a resolução de problemas históricos com a construção de uma rede mais eficiente, humana e preparada para o futuro.




