O relicário urussanguense da Praça
- MARCIA MARQUES COSTA

- 11 de jun.
- 4 min de leitura
Por Marcia Marques Costa

Urussanga tem uma forma peculiar de guardar muitas de suas histórias.
Não em museus, placas de bronze, livros ou jornais. Mas naquelas conversas de bar que se estendem por décadas sobre feitos de personagens locais, nos encontros de amigos que envelheceram juntos, nas anedotas que se repetem por gerações até virar verdade, ou mentira consensual que causa boas risadas. Não são dessas histórias que falaremos hoje.
Falaremos de um lugar que guarda em seu chão batido pelos pés de gerações, o pulso da transformação.
Um local em que fluíam as águas quietas de um banhado à margem do rio, onde indígenas chegavam com seus conhecimentos ancestrais de pesca e sobrevivência, e onde imigrantes italianos começariam a escrever uma história diferente: a história de encontro, reinvenção e pertencimento.
E quando eles aportaram nessa região, não trouxeram apenas malas e sonhos. Trouxeram consigo a capacidade de transformar espaços em novos cenários de vida.
A praça se tornou espelho dessa identidade. Não apenas um terreno urbanizado, mas um relicário onde cada camada de tempo deixava suas marcas. As cantinas de vinho, como a célebre de Darvino Bez Batti, que alcançaria fama nacional, não eram simples estabelecimentos comerciais. Eram templos da sociabilidade, pontos de irradiação cultural que definiram o caráter do lugar.
Por mais de 140 anos, a Praça Anita Garibaldi funciona como o coração pulsante da comunidade. Desde a presença da bandeira de Mussolini a tremular na casa dos Battilana mostrando que em Urussanga havia um grupo fascista, até os soldados do Exército Brasileiro que faziam exercícios na praça durante um período turbulento da história brasileira, se adiciona uma camada de ambiguidade à narrativa.
Enquanto soldados da era Vargas marchavam por suas ruas, enquanto a bandeira tricolor tremulava, nem sempre sozinha, a praça ia se inserindo na história, sendo o lugar onde diferentes lealdades políticas se expressavam, e onde a história nacional e mundial irrompiam nos afazeres locais. Cada celebração pública encontrava ali seu palco natural.
Nos momentos de solenidade cívica, o palanque da Independência ocupava sua posição de honra, e o desfile de 7 de setembro convocava multidões. Nos instantes de devoção, as procissões de Corpus Christi transformavam a praça em caminho sagrado e deixavam ecoar o som forte da matraca que anunciava a morte de Jesus. O espaço laico tornava-se temporariamente território do sagrado, onde fé e comunidade se entrelaçavam.
Também era ali, escondidos sob o caramanchão de ciprestes, que namorados sussurravam promessas.
Aquelas árvores, muitas das quais ainda vivas, embora agora idosas, foram testemunhas silenciosas de inúmeros afetos nascentes. Gerações inteiras descobriram o amor à sombra daquele refúgio verde.
Nos momentos de brincadeiras despreocupadas, crianças descalças jogavam com bolinhas de gude, organizavam disputas de futebol improvisado, inventavam jogos de esconde-esconde onde toda a praça se transformava em labirinto de possibilidades. Aqueles pés nus tocavam o chão que seus avós também tocaram, numa continuidade que parecia garantida, eterna.
Com o tempo, a praça evoluiu em sua capacidade de abrigar não apenas celebrações tradicionais, mas expressões de consciência cívica e resgate identitário. As gincanas para a juventude não eram meros entretenimentos, eram estratégias de manutenção de memória, formas de garantir que as novas gerações conhecessem suas próprias histórias.
A Festa Ritorno Alle Origini (Retorno às Origens) representava o ponto de maturidade dessa relação com o passado. Comunidade e tradição se reencontravam em um ato deliberado de rememoração. As barracas que cercavam a praça transformavam-na em laboratório vivo de ancestralidade. Mãos que faziam pão como seus antepassados, técnicas de açúcar mascavo perpetuadas através de gerações, polenta com galinha servida não apenas como alimento, mas como sacramento de continuidade.
Exposições fotográficas sobre questões ambientais e iniciativas de escolas coloriam o calendário de atividades. A praça revelava sua capacidade de ser espaço de reflexão crítica, não apenas de celebração nostálgica. Problemas da modernidade como degradação ambiental, educação, desenvolvimento sustentável, encontravam ali um palco para discussão pública.
Hoje, aquela mesma praça confronta gerações posteriores com perguntas incômodas. As árvores envelhecidas não falam apenas de tempo decorrido, mas da finitude, da necessidade de renovação. O coreto que atualmente precisa de maquiagem e procedimentos estéticos, é metáfora viva da degradação física de si e seu entorno.
O mais perturbador, no entanto, é perceber que a vida comunitária parece ter se distanciado desse lugar.
Em uma era de isolamento digital, de privatização dos espaços de lazer, de transformação das ruas em meros corredores de trânsito, a praça enfrenta uma crise de pertencimento. Aqueles que deveriam ser seus herdeiros naturais, os filhos e netos dos urussanguenses que brincavam descalços, vivem seus encontros mediados por telas, seus entretenimentos são on line, tendo seus rituais de identidade comunitária fragmentados.
A pergunta que paira sobre a praça não é meramente técnica. Não se trata apenas de quando pintar o coreto que completa 30 anos de sua construção, ou como restaurar o paisagismo. É, sim, uma pergunta ontológica: pode um lugar recuperar seu significado uma vez perdido?
Ou, reformulando, qual tipo de significado novo pode ser construído sobre as fundações do significado antigo?
Talvez o desafio não seja só preservar a praça como um museu de um tempo que não volta. Mas imaginar como ela poderia ser novamente, de forma diferente, preservando sua essência e adequando-se ao nosso tempo, um espaço de encontro real e frequente, de construção comunitária, de elaboração coletiva de identidade.
As raízes italianas ainda permanecem no solo.
Os espíritos dos soldados de Vargas pairaram e sumiram. Os namorados envelheceram ou desapareceram.
As crianças cresceram, muitas deixaram a cidade.
Mas o lugar permanece, esperando, como todos os lugares verdadeiros esperam, por aqueles que o reinventem, o reivindiquem, o façam viver novamente. Não como mera réplica do passado, mas como promessa de futuro. Pensem nisso.




